‘Câncer não espera’: pacientes têm tratamento suspenso na pandemia

Falta de insumos, exames e medo da pandemia têm interrompido tratamentos oncológicos, preocupando médicos e pacientes

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Pelo menos uma vez por semana, Jussara Del Moral, 55, é obrigada a sair do isolamento para colher os exames de sangue que determinam se sua imunidade é suficiente para continuar a quimioterapia. Há 11 anos, ela convive com um câncer de mama metastático que se infiltrou na calota craniana.

“O câncer não espera. As pessoas continuam tendo a doença e não estão sabendo, ou então sequer conseguem avançar para além do diagnóstico”, conta Jussara que por causa da quarentena optou por adiar seu pet scam, exame que determina novos focos da doença pelo corpo. O procedimento é essencial para acompanhar a evolução da metástase. Apesar disso, ela conta que vive uma rotina “praticamente normal”: toma sua medicação mensal em uma clínica privada no ABC, aonde chega de carro.

“Posso me dar ao luxo de fazer isso, pois minha doença está controlada. Mas muitos pacientes estão tendo exames negados e não sabem nem por onde começar a brigar.”, conta ela, que tem um canal no YouTube intitulado Supervivente, no qual compartilha suas experiências e orienta seguidores sobre os processos burocráticos para o tratamento de câncer.

É o caso da administradora Josi Damasceno, 47, que mora em Belém do Pará. Há cinco anos, ela também luta contra um câncer de mama metastático e espera para realizar o pet scam há mais de um mês. Isso porque o fármaco utilizado no contraste do exame não pode ser estocado e não tem chegado à cidade por conta da escassez de voos para o estado. Já no hospital público Ophir Loyola, medicamentos quimioterápicos estão em falta há 15 dias, segundo conta a administradora. A reportagem entrou em contato com o hospital Ophir Loyola, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

De acordo com Josi, que também coordena um grupo de apoio com 120 pacientes, o clima é de “ansiedade desnecessária.”

“Por causa do Lockdown o transporte é um dos problemas Quem mora em cidades menores não consegue chegar à capital de ônibus para dar continuidade ao tratamento. Algumas chegam por carros de aplicativo, mas outras integrantes não têm nem como arcar com o transporte até aqui.”

 

Interrupção preocupa oncologistas

 

A desistência do tratamento têm preocupado a classe oncológica. O oncologista Paulo Hoff, presidente da Oncologia D´Or e diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), iniciou uma campanha de conscientização para que os pacientes não deixem de se tratar. Segundo ele, a maior preocupação é com pacientes no meio de procedimentos diagnósticos ou tratamentos essenciais: “Isso é importante quando lembramos que o tratamento do câncer geralmente tem mais sucesso quando realizado no início da doença.”

Segundo ele, exames não essenciais podem até ser postergados. No entanto, o tratamento quimioterápico não deve ser interrompido, nem o acompanhamento médico, que tem contado com recursos de videochamada.

“Entre os tipos de câncer, os que nos preocupam mais neste momento são aqueles que estão associados com um grau maior de imunossupressão ou com tratamentos mais agressivos”, explica Paulo Hoff. “São os tumores hematológicos, tumores com envolvimento dos pulmões, e os transplantes, mas o cuidado deve se estender a todos os pacientes.”

 

Fonte: R7

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